sábado, 18 de novembro de 2017

Ruínas de S. Paulo: estátuas da fachada

Na fachada da antiga Igreja Mater Dei (23 metros de largura e 25,5 metros de altura), conhecida por Ruínas de S. Paulo,  por entre colunas jónicas e janelas podem ver-se sete estátuas de bronze, muito provavelmente criadas na fundição de Manuel Tavares Bocarro que, na primeira metade do séc. XVII, época da construção da igreja, fabricava em Macau canhões de ferro e de bronze.
No nível três destacam-se as estátuas dos fundadores da Companhia de Jesus: S. Francisco Xavier(1506-1552), Sto. Inácio de Loyola (1491-1556) - este dois canonizados na época, estão ao centro da entrada; S. Luís Gonzaga (1568-1591) e S. Francisco de Borja (1510 – 1572), este dois últimos, era beatos na época, e estão nas extremidades.
Já na parte do frontão triangular, estão as estátuas da Virgem Maria e do Menino Jesus. No topo, está a pomba que representa o "Espírito Santo".
Mais sobre as "ruínas" aqui ou seguindo as 'etiquetas'

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Grande Prémio: lendas e curiosidades

Já arrancou a 64ª edição do Grande Prémio de Macau, um dos mais importantes cartazes turísticos de Macau. Até 19 de Novembro a cidade 'rende-se à vibração dos motores e à adrenalina da velocidade para viver e sentir as emoções daquela que é considerada a maior prova ...desportiva motorizada da Ásia e que ao longo de décadas tem revelado e confirmado o nome de alguns pilotos que se tornariam campeões do Mundo de F1, como Ayrton Senna, Michael Schumacher e Lewis Hamilton.
Na edição deste ano o GPM é o único evento internacional de automobilismo no mundo a receber duas Taças do Mundo oficiais da FIA - Taça do Mundo de F3 e Taça do Mundo de GT, e ainda uma ronda do Campeonato do Mundo de Carros de Turismo da FIA (WTCC), fazendo ainda parte do cartaz o Grande Prémio de Motos, que contará com a participação pelo segundo ano consecutivo do piloto português André Pires, a Taça de Carros de Turismo de Macau e a Taça da Corrida Chinesa Grupo Suncity.
1954: a estreia do GPM num registo da zona da meta com bancadas de bambu improvisadas para a organização e para a Rádio Vila Verde.
1960: Martin Redfern ao volante do icónico Jaguar XKSS foi o grande herói desse ano.
1967: estreia do GP Motos ganha pelo japonês Hiroshi Hasegawa numa Yamaha RD 56.
1973: John Macdonald vencedor de seis provas em Macau, recorde absoluto. (na foto está ao lado de Teddy Yip, outra lenda do GPM)
1974: O australiano Vern Schuppan foi o vencedor batendo o recorde da volta mais rápida com 2:30.96, num March 722; David Purley, a 4 voltas ficou em 2º e Herb Adamczyk foi 3º.
1983: a prova de Macau para a contar para a Taça do Mundo da FIA e na estreia na modalidade, o brasileiro Ayrton Senna venceu a primeira prova de F3.
1984: A edição 31 seria ganha pelo dinamarquês John Nielsen; nas Motos Mick Grant venceu com uma Suzuki 500; Tom Walkinshaw venceu a Corrida da Guia num Jaguar XJS.
1990: deste ano fica para a história o acidente entre Hakkinen e Shumacher. No pódio: Michael Shumacker (1º) Mika Salo (2º) Eddie Irvine(3º), todos chegariam à F1 e à Ferrari.
1999: o GPM dotado do que de mais moderno existia para a organização e realização da prova; Jenson Button, ficou em segundo lugar, atrás do britânico Darren Manning.
O Circuito da Guia actualmente e que praticamente não sofreu alterações desde 1954

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Património cultural intangível

Foto agência Lusa
Há algumas semanas o Instituto Cultural actualizou a lista do Património Cultural intangível com cinco novas entradas: as procissões católicas do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora de Fátima, a 'Crença e Costumes de Tou Tei', 'Crença e Costumes de Chu Tai Sin' e a 'Arte dos Andaimes de Bambu'.
Ao todo, a lista inclui 15 manifestações: Ópera Yueju (Ópera Cantonense), preparação do chá de ervas, escultura de imagens sagradas em madeira, Naamyam Cantonense (Canções narrativas), música de ritual taoista, Festival do Dragão Embriagado, Crença e costumes ligados à adoração a A-Ma, Crença e os costumes de Na Tcha, Teatro em patuá, Gastronomia macaense, Crença e costumes de Tou Tei, Crença e costumes de Chu Tai Sin, Arte dos andaimes de bambu, Procissão do Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos e Procissão de Nossa Senhora de Fátima.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A China na Grande Guerra

No próximo ano assinalam-se os 100 anos passados sobre o fim da primeira guerra mundial. O conflito iniciado em 1914 terminou simbolicamente a 11 de Novembro de 1918, sendo conhecido pelo Dia do Armistício (de Compiègne), assinado entre os Aliados e o Império Alemão naquela localidade francesa, pelo fim das hostilidades na Frente Ocidental, o qual teve efeito às 11 horas da manhã, ou seja, a "undécima hora do undécimo dia do undécimo mês". Na chamada Frente Oriental as hostilidades prosseguiriam... Facto pouco conhecido foi a 'participação' da China.
Membros do CLC junto a fábrica de munições em Vonges, França
A imagem abaixo é de um mapa chinês de 1918 onde são assinaladas a diferentes cores a posição dos diferentes países face ao conflito. A vermelho estão os aliados e a azul os 'inimigos'. A bandeira de Portugal - que tal como a China também por ter uma posição neutral no conflito - está do lado direito.
A primeira guerra mundial teve início em 1914 e só terminou em 1918. Facto pouco conhecido foi a participação chinesa no conflito que oficialmente só ocorreu a partir de meados de 1917, mas antes disso, em meados de 1916, já milhares de chineses tinham chegado à Europa - provenientes sobretudo do Norte mas também de Hong Kong - para ajudar no esforço de guerra ao lado dos aliados - enterravam os mortos, cavavam trincheiras, trabalharam em fábricas de munições, como tradutores, etc - num grupo que ficou conhecido por Chinese Labour Corps (símbolo em baixo). Ao todo foram mais de 500 mil sobretudo em Inglaterra e França (e dali para os EUA), mas também na frente russa. Muitos voltariam a casa - o última contingente voltou já em 1920 - com a primeira experiência do mundo ocidental ajudando a construir a China do século XX (o partido comunista subiu ao poder em 1949). Outros, cerca de dois mil, morreram...
A China, tal como Portugal, era, na época uma jovem república. O período da dinastia imperial tinha chegado ao fim e o país vivia em guerra civil, com dois governos, um a Norte e outro a Sul. Vários países do Ocidente, mas também o Japão tinham importantes interesses comerciais e estratégicos na China com especial predominância em algumas cidades, como Xangai, Pequim ou Tsingtao. E os alemães tinha ocupado a província de Shandong em 1898.
Numa primeira fase da guerra, Sun Yat Sem, fundador da República chinesa, manifestou-se contra a participação no conflito, mas em Agosto de 1917 vir-se-ia a juntar aos aliados cojtra os japoneses e alemães. Implicitamente a ideia era, como a potencial vitória aliada, conseguir para a China alguns proveitos e o fim do que se denominava "exploração colonialista". Na prática acabou por não ser assim, após a Conferência de Paz e só no final da década de 1940 o cenário político iria mudar... Mas antes, ainda ocorreu a segunda guerra sino-japonesa (1937-1945), uma espécie de 'guerra esquecida' da segunda guerra mundial, mas que deixou marcas profundas. Dos 60 milhões de mortos registados no conflito mundial, um terço, 20 milhões, eram chineses. 
Existe abundante bibliografia em inglês sobre o tema mas muito pouca em português. Um desses raros exemplos é de 2014. Tem como título  "China na Grande Guerra - A conquista da Nova Identidade Internacional", e é da autoria de Luís Cunha com edição do IIM.
Curiosidade:
Em Hong Kong existe desde 1923 um monumento denominado - The Cenotaph - que começou por ser uma forma de homenagear os membros das forças armadas britânicas que ao serviço da então colónia britânica morreram na guerra. O memorial, réplica do que existe em Whitehall, Londres, passou também a servir para lembrar e homenagear as vítimas da segunda guerra mundial, um conflito com consequência bem mais nefastas para esta zona do mundo. Hong Kong foi invadido pelo exército japonês em Dezembro de 1941. Com uma forte comunidade portuguesa e macaense a residir na então colónia britânica foram muitos os portugueses e macaenses que sucumbiram na defesa do território. Ainda assim milhares conseguiram escapar encontrando um porto de abrigo a menos de 100 quilómetros de distância, em Macau.

domingo, 12 de novembro de 2017

9º aniversário do blogue na Macau News Agency

Macau | Connecting memories on and offline - Macau Antigo
The website ‘Macau Antigo,’ a blog created and maintained by João Botas, a Portuguese journalist who has lived in the city, is celebrating nine years this month
Macau (MNA) – A blog focusing on the history and social memory of Macau, named ‘Macau Antigo,’ is celebrating nine years this month, with more than 30,000 images and 4,000 posts uploaded since its inception, its founder, João Botas, told Macau News Agency (MNA).
‘I believe that one of the main assets of the project is to promote the history of Macau in an attractive way by using accessible language supported whenever possible by illustrations,’ Mr. Botas told us in an email.
The Portuguese journalist, who has lived in the city for ten years, told MNA that he launched the project following research carried out to write his first book, Liceu de Macau 1893-1999, in 2007.
‘I found so much material that I thought it was a waste not to share it,’ he claims.
The sources providing substance to the website are ‘the most varied,’ Mr. Botas noted, but consist primarily of two types, namely, a collection of personal objects he has accumulated throughout the years, and the Internet.
The ‘memorabilia related to Macau,’ which the journalist claims to be ‘one of the most important sources’ of the project, comprises more than 5,000 objects.
Those include coins, magazines, ‘lai sis,’ movie and jet-foil tickets, stamps, postcards, maps, matches, and books, which amount to nearly a thousand copies.
He pointed out that several of them were procured at auctions and antiquity fairs.
Regarding the Internet, Mr. Botas said the ‘nearly inexhaustible source’ enables him to search and collect material, as well as establish connections with readers, who also send him documents.
‘I recall a former military [officer] who offered me a 1950 mah-jong set, and another who gave me more than 20 old maps,’ he explains, adding that some people also offer him objects left by deceased family members.
‘They ask me if I want to “make good use” of them so that they can continue to tell stories of Macau’s history,’ he told MNA.
The blog, which the journalist claims to be ‘probably the biggest online documental archive about the history of Macau,’ has received more than one million page views since its creation in 2008.
By country of origin, the largest number of readers comes from Portugal, followed by Macau, U.S., Brazil, Russia, Germany, Hong Kong, China, France, and Canada, according to the owner of ‘
Macau Antigo‘.
Text by Sheyla Zandonai in Macau News Agency

sábado, 11 de novembro de 2017

Pan Am timetable San Francisco-Manila-Macao-Hong Kong route


 Pan Am timetable for the San Francisco-Manila-Macao-Hong Kong route
Departure from San Francisco was on Wednesday afternoon, and arrivals were:
Manila 5PM Tuesday
Macao 1:50PM Wednesday
Hong Kong 3PM Wednesday
Along the way, stops were made at Honolulu, Midway, Wake and Guam.

Mais sobre o China Clipper aqui

Para além do transporte de passageiros
esta ligação assegurou pela primeira vez o correio aéreo


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Silva Mendes e Camilo Pessanha em 1910

No ano em que se comemoram os 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes e Camilo Pessanha, recordo a título de curiosidade algumas das funções desempenhadas por estas duas personalidades em Macau no ano de 1910 ao nível do ensino. Enquanto bacharéis de direito, Mendes e Pessanha tinham outros cargos. MSM exercia em paralelo a profissão de advogado e o cargo de juiz. Pessanha foi conservador do registo predial e ainda juiz de direito. No "Curso Commercial annexado ao Lyceu Nacional" Silva Mendes era o director do curso enquanto Pessanha era professor de História, Direito Commercial e Economia Política. No "Lyceu Nacional de Macau", Silva Mendes era o reitor interino (além de professor) e Pessanha era o professor de História da China e Direito Commercial, duas das "Cadeiras Annexas ao Liceu". (imagem abaixo)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Vida e arte de Marciano Baptista

Marciano António Baptista (1826-1896), foi o melhor pintor macaense do Século XX. Embora a sua arte não tenha sido completamente ignorada ao longo da sua vida, só desde os princípios do nosso Século se tem procurado, esporadicamente, atribuir-lhe o seu verdadeiro valor.
Em Macau, na segunda década do Século XX, já as suas obras eram objecto de atenção por parte de um público mais culto. Silva Mendes, em 1914, chama-o "aguarelista notável". Em 1918, Humberto de Avelar, editor da desaparecida revista "Macau", depois de seleccionar um dos seus desenhos, classifica-o de "o melhor artista que até hoje nasceu em Macau". Dez anos mais tarde, Maria Ana Tamagnini, num artigo sobre uma exposição de arte patenteada no desaparecido Palacete da Flora - uma das primeiras em Macau-comenta que, além de George Chinnery, "outros houve que nesta terra demonstraram incontestável valor artístico como o Barão do Cercal, Marciano Baptista, etc."
Marciano Baptista nasceu em Macau a 5 de Junho de 1826. Pouco se conhece da sua infância, com excepção de que era filho ilegítimo de Manuel Joaquim Baptista e de Ana Laureana. O pai legitimá-lo-ia mais tarde.
Parece que a sua juventude foi pobre, tendo estudado, no entanto, no Seminário de S. José, então uma respeitável escola portuguesa para rapazes, de orientação católica. Sabe-se que se matriculou em Junho de 1838 na escola primária com a idade de 12 anos. Destes poucos, mas significativos, dados se pode concluir que a sua juventude foi típica de um rapaz macaense. Durante esse período, diz-se ter conhecido o artista inglês George Chinnery. Segundo a tradição familiar, a amizade de Baptista com Chinnery data da sua meninice, quando se diz que "andava sempre atrás do artista", pronto a fazer tudo o que ele lhe pedisse, inclusive misturar as cores.
Este aspecto comovente da sua juventude parece ser verídico. Daí ser fácil supor que mais tarde se tenha desenvolvido uma relação de mestre a discípulo. Posteriormente, Baptista continuou influenciado pelas pinturas do seu mestre, mesmo quando interpretava os temas com o seu próprio estilo. As obras mais tardias de Baptista são disso prova, tanto na temática como na estilística e, mais concretamente, as inscrições nas suas pinturas. Uma das agua-relas desta exposição tem a legenda "segundo Chinnery" e Baptista anunciava a sua arte em jornais de Hong Kong, nos quais se lia "Vistas de Hong Kong, Macau, etc., segundo o falecido Sr. Chinnery".
É de supor que foi depois de terminar os estudos no Seminário de S. José que começou a sua amizade com Chinnery, embora seja lógico admitir-se que tenha contactado anteriormente com o artista, quando Chinnery residia na R. Inácio Baptista, perto de S. José.
Os finais de 1830 foram para Chinnery anos de grande produção artística. Como o melhor artista laico que se estabeleceu no Sul da China até essa altura, tinha grande sucesso como retratista, especialmente entre os elementos da Companhia Inglesa das Índias Orientais, então uma força poderosa na Índia, Macau, Cantão e outras zonas do Oriente. Depois de passar por várias residências, Chinnery arrendou, finalmente, uma casa na R. Inácio Baptista, atrás da belíssima igreja neo-clássica de S, Lourenço e perto dos escritórios da Companhia das Índias Orientais, na Praia Grande. No seu estúdio, o velho artista produzia aguarelas de tamanho médio, de Macau e Cantão. Tinha um pequeno grupo de discípulos entre os expatriados, ansiosos por aprender os rudimentos do desenho e da aguarela. Depreende-se de muitos dos seus desenhos que Chinnery informalmente ensinava a (relativamente nova) técnica da aguarela, bem como as regras clássicas da pintura que tinha aprendido na Academia Real de Londres.
Foi parte desses rudimentos que Baptista absorveu. Em minha opinião, a influência da escola da paisagem inglesa do Século XIX está bem patente nas suas pinturas. É necessário tê-la em mente quando pretendermos analisar os seus trabalhos.
A segunda metade da vida de Baptista não foi a época tranquila que as suas aguarelas cheias de sol parecem transmitir. Do ponto de vista da história da China, o Século partiu-se em dois por causa da Guerra do Ópio, de 1839 a 1842. A cidade de Macau, no dizer de algumas testemunhas da época, quase chegou à ruína. Abbé Huc comenta com tristeza que Macau parecia uma cidade fantasma, cheia de mansões elegantes abandonadas, e não lhe augurava mais que um par de anos para desaparecer. Um "Diário" anónimo americano de 1857 corrobora esta opinião notando que "Macau está em estado de ruínas". Grande número de importantes crónicas, desde Abbé Huc até Montalto de Jesus nos finais do Século, atribuía à abertura de Hong Kong, como porto livre, a principal causa desta desgraça.
No que diz respeito à vida privada de Marciano Baptista, a segunda metade do Século é marcada pela sua fuga para Hong Kong. Este episódio ocorre nos finais de 1840, ou durante a década seguinte. No entanto, sabe-se que em 1857 residia, em definitivo, com a família, no n° 2 do Oswald's Terrace e que vi-veria o resto da sua vida na Colónia Britânica.
Esta mudança deve ter sido ocasionada pelas difíceis condições de vida em Macau. Montalto de Jesus deixou-nos um relato sombrio do destino que esperava os macaenses que se aventuravam na vizinha colónia. E, embora a sorte de Baptista não pareça ter sido tão triste, o certo é que também não foi fácil.
A fuga para Hong Kong foi também influenciada pelo seu casamento, em 1848, com Maria Josefa do Rosário e pela necessidade de manter a família, que crescia constantemente até nascer o último dos 12 filhos, segundo alguns testemunhos. Nas palavras duras, de Silva Mendes, "Marciano era pobre e Macau, Hong Kong e Cantão não são terras que alimentem poetas ou artistas no exercício de altas e puras realizações estéticas" 
Deste modo, encontramos Baptista como "homem dos sete instrumentos": pintor, professor de arte, desenhador, ilustrador gráfico, cenógrafo e, nos finais do Século, também fotógrafo, aparentemente.
Contudo, uma vez radicado em Hong Kong, a arte de Baptista não passou completamente despercebida. Um número limitado de referências contemporâneas, dá indícios de certo reconhecimento por alguns amantes da arte. Uma carta do China Mail de 3 de Setembro de 1857 - a 1.a referência que se conhece do artista na Colónia Britânica-dá-nos um bom exemplo, se a aceitar-mos como um testemunho: suplica ao público que ajude a manter a arte de Baptista, em vez das produções em série de artistas chineses de fraco talento. A última frase é uma referência clara aos artistas menos criativos da China Trade, que proliferavam nessa época.
Que pinturas de Baptista eram essas, tão apreciadas pela sua qualidade "artística"?
Podemos dividi-las nos seguintes grupos: 1) - Pinturas de dimensões maiores, com cenas de portos de mar e de paisagens, executadas principal-mente em aguarela; 2) - Álbuns com conjuntos de aguarelas de tamanho médio, com vistas dos "Portos do Tratado" e outros locais, uma espécie de lembrança turística; 3) - Desenhos e pinturas de cenas de rua; 4) - Pinturas ou desenhos de motivos históricos.
Para além destes tipos, sabemos que pintou cenários de teatro e forneceu desenhos a revistas. Esta divisão em grupos é feita por razões práticas, apenas para ordenar os trabalhos dispersos do artista. Numa excelente introdução de seguida publicada, Patrick Conner atribui a Baptista influências da pintura topográfica evoluída dos artistas ingleses e da estética do pitoresco, aprendida com Chinnery.
Em nossa opinião, a corrente da China Trade, mais orientada para a comercialização, teve também influência, embora em menor escala, na arte de Baptista. Podemos observá-la num estudo da sua obra, não só no estilo mas também em pormenores da sua técnica e da sua prática de produção e venda por anúncios.
Embora a paleta de Baptista fosse limitada, com uma preferência pelas cores primárias azul e vermelho, bem como pelo verde e o castanho, o artista utilizava muitas vezes o pincel à maneira típica da arte chinesa. Para escolher só um exemplo: se examinarmos a sua vista do "Bund" de Foochow, da colecção do Museu Luís de Camões, pode verificar-se como aplica uma mancha uniforme vermelha para delinear as estruturas dos edifícios, sem se preocupar com dar um efeito de três dimensões. Baptista combina esse tipo de pincela-das com a perspectiva e a cor ocidentais. Uma das suas cores mais características é o azul e torna-se difícil imaginar as harmonias subtis por ele criadas fora do ambiente oriental em que vivia. O mesmo se pode afirmar da maneira como pinta os juncos e as árvores, além da sua delicadeza de toque. Uma das actividades mais agradáveis de Baptista deve ter sido a sua ligação a artistas chineses de Hong Kong, contribuindo deste modo para um dos importantes intercâmbios entre a pintura ocidental e oriental.
Este intercâmbio, e o consequente interesse pela pintura ocidental por parte dos pintores chineses e japoneses, como é sabido, foi eventualmente importante para a evolução da pintura contemporânea em Cantão. Silva Mendes já falava da Escola Nova no Japão.
Quanto ao quarto tipo, que trata dos acontecimentos históricos, é um género típico da arte ocidental. Silva Mendes não tinha uma opinião muito positiva destes trabalhos de Baptista. Além disso, chamou ao artista "cenógrafo" e fala de uma cena pintada para o City Hall de Hong Kong, que nos seus dias era tido em grande consideração. Referia-se ao elegante Teatro Royal do City Hall, onde se apresentou pela primeira vez uma representação de teatro amador, em Novembro de 1869? Não se sabe ao certo, pois pesquisas recentes indicam o contrário. Sabe-se, no entanto, que Baptista executou um cenário nos finais de 1850 para o empresário inglês Albert Smith, impressionado pelos "talentosos desenhos" de Baptista.
Os trabalhos de Baptista agora expostos, mostram-nos um Macau em vias de extinção; não só vemos pagodes, fortalezas, edifícios chineses e europeus do Século XIX, mas também graciosos e coloridos juncos de diferentes tipos, nos rios e águas de Macau, Hong Kong e Cantão. Quando vivia em Hong Kong, sabemos que Baptista visitou a sua terra natal, pelo menos uma vez. O desenho aqui exposto do Monte da Guia em 1875, comprova-nos esse facto. Macau tinha um ano antes sido acossado pelo mais terrível tufão da sua história ao longo de 400 anos. O ambiente de saudade deste desenho, com o seu farol, forte e colina distantes, símbolos da resistência de Macau e de Baptista, diz-nos muito sobre o artista e sobre a sua arte. O artista faleceu quando residia em Caine Road, Ilha de Hong Kong, a 18 de Dezembro de 1896.
Artigo da autoria de César Guillén Nuñez na Revista Cultura nº 3, 1990


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Foto-Legenda: a recta da meta do GPM

Esta época do ano é sinónimo de Grande Prémio em Macau desde 1954. Na imagem abaixo - do final da década 1940/início de 1950 - pode ver-se a zona da recta da meta desta prova que é, muito provavelmente, o principal cartaz turístico do território.
clicar na imagem para ver em tamanho maior

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Padre Gaetano Nicosia

Morreu esta segunda-feira em Hong Kong o padre Gaetano Nicosia. Tinha 102 anos. Nicósia nasceu a 3 de Abril de 1915 em Itália (Catania). Aos 20 anos rumou como sacerdote ao Oriente tendo-se estabelecido em Hong Kong onde iniciou a sua missão religiosa a 11 de Novembro de 1935.
Em 1958 mudou-se para Macau e entre 1963 e 2011 o sacerdote viveu na povoação de Ká-Hó, em Coloane, numa época em que o acesso à ilha só se fazia de barco. Cerca de 100 leprosos viviam na leprosaria de Ka Hó, abandonados à sua sorte e a necessitar urgentemente de cuidados. Diz quem viveu nesses anos que o padre Nicosia nunca se recusou a tratar os enfermos apesar do risco de contágio.
"Padre Gaetano Nicosia, o anjo dos leprosos" é o título de um documentário realizado em 2015 por Ciriaco Offeddu e Angelo Paratico que aborda a vida e obra do salesiano explorando a viagem do padre Nicosia desde a Sicília até à Ásia, compreendendo a juventude, os estudos e o trabalho desenvolvido na região que inclui ainda o apoio aos refugiados vietnamitas na década de 1970.
Father Gaetano Nicósia died last monday in Hong Kong at the age of 102. The italian priest started his missionary work in Hong Kong on November 1935. After that he went to Macau in 1958 where, in 1963, began working at Ká-Hó village (Coloane island) with people who suffered from leper. Thanks to the use of western medicine and to the indefatigable dedication of this priest, the patients started to receive medical treatment and the village slowly became leprosy-free. Father Nicosia helped many of these people to get reintegrated into society, despite the stigma attached to this illness. Nicosia also carried out other important projects that led to the construction of a school and a hospital for disabled people in Macau. In 2015 two italians, Ciríaco Offeddu and Angelo Paratico filmed a documentar called "Father Nicosia, The Angel of The Lepers". This documentar explores his life journey from Sicily to Hong Kong and Macau and the work he carried out with amazing devotion for the people most in need.
天主的忠僕 胡子義神父於今日下午5時15分,在香港仔黃竹坑聖瑪利安老院病逝,享齡102歲。胡神父澳門服務弱小,如被遺棄的殘障兒童和精神病患者多達80年。


domingo, 5 de novembro de 2017

A aldeia de Mong-Há

De acordo com fontes chineses a aldeia de Móng Há foi um dos primitivos núcleos de povoamento de Macau (um de um total de 8), datando, ao que tudo indica, do século XIII/XIV. No livro "Macau e a sua Diocese", de 1940, o pade Manuel Teixeira escreve, citando Peter Mundy e o livro "The travels of Peter Mundy, Hakluyt Society", editado em Londres em 1919:
(...) O que é hoje a cidade de Macau, era, no seu início, uma pequena península, quase toda árida e escassamente coberta de relva, cercada de inóspitas ilhas e apenas ligadas por uma língua de terra à ilha de Héong San. Habitações havia poucas, sabendo-se que no vale de Móng Há moravam algumas famílias, entre as quais duas originárias de Fôk Kin, uma de apelido Tsum (Sam), outra de apelido Hó. Havia também dois pagodes, pretendendo cada qual para si a primazia da antiguidade: o pagode da Barra ou Má Kok-Miu - Templo da Deusa Á-Má e o Tin Hau Seng Mou Miu, Templo da Deusa Rainha Celestial (...)
Segundo a tradição o nome “Mong-Há” significa “olhando a cidade de Xiamen ao longe”. Nos tempos áureos a aldeia contava com mais de 130 ruas e vielas e ocupava uma área que corresponde actualmente às zonas da Rua de Francisco Xavier Pereira, Rua da Madre Terezina, Avenida do Coronel Mesquita, Avenida do Ouvidor Arriaga, Travessa do Pano, Travessa do Búzio e Beco do Caracol.
Os dizeres do par de dísticos gravados na porta do salão ancestral do Clã Ho da Povoação de Mong-Há indicam que a maior parte dos seus habitantes eram oriundos da cidade de Xiamen, na província de Fujian. A aldeia contava com mais de 500 habitações, sendo os clãs mais populosos Chiu, Ho, Shum, Vong e Hui, que contavam com os seus próprios salões ancestrais. No entanto, o clã dominante e mais populoso era o Ho. 
Sendo uma zona pantanosa e alagadiça (cultivava-se arroz), atravessada por ribeiros e tendo mesmo uma lagoa, depressa se tornou um problema de saúde pública que começou por ser resolvido com aterros sucessivos e o enterramento da lagoa (que ainda foi aproveitada em parte na primeira exposição industrial de 1926). O 'golpe' definitivo sobre a configuração original da primitiva aldeia deu-se com a construção da Av. Coronel Mesquita.


Imagem das várzeas de Mong-Há muito afastadas do centro nevrálgico da cidade.
Curiosidade: são diversos os topónimos que 'contam' a história de como foi esta parte da cidade: travessa do lago, travessa da ponte, rua dos arrozaes, rua da ribeira do patane, etc...
PS: Para quem pretender saber mais informações sobre o tema sugiro os vários artigos publicados pela professora Ana Maria Amaro que fez uma trabalho notável de recolha de documentação, e ainda este artigo publicado na Revista Macau nº 18.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

foto-Legenda: San Ma Lou década 1970

Av. Almeida Ribeiro (San Ma Lou) no final da década de 1970
Uma foto tirada quase do mesmo ângulo no final da década de 1960;
ao fundo vê-se o hotel Lisboa em fase de construção.
clicar nas imagens para ver em tamanho maior


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Cidade Criativa da UNESCO em Gastronomia


A directora-geral da UNESCO, Irina Bokova, anunciou há momentos que “Macau, China” é membro da Rede de Cidades Criativas da UNESCO (UNESCO Creative Cities Network - UCCN) na área da Gastronomia. Macau tornou-se assim na terceira Cidade Criativa de Gastronomia na China, depois de Chengdu e Shunde. A UCCN cobre sete áreas criativas: artesanato e arte popular, design, cinema, gastronomia, literatura, música, artes e m...edia.
Macau detém agora um novo estatuto que se espera vir a atrair uma série de novas oportunidades para promover a cultura gastronómica única de Macau e desenvolver uma indústria de turismo sustentável, numa altura em que a cidade move esforços para se transformar num centro mundial de turismo e lazer.
A designação de Macau como Cidade Criativa da UNESCO em Gastronomia vem adicionar mais uma emblemática marca ao portfólio da cidade, que incluía já o Centro Histórico de Macau, inscrito como Património Mundial da UNESCO em 2005, e no seguimento da inscrição no Registo da Memória do Mundo da UNESCO da colecção denominada “Chapas Sínicas” (Registos Oficiais de Macau durante a Dinastia Qing (1693-1886)). Macau é membro associado da UNESCO desde 1995.
Para celebrar a eleição de Macau como Cidade Criativa da UNESCO em Gastronomia, serão realizadas uma série de actividades de divulgação e sensibilização a nível local e internacional. Várias iniciativas serão também realizadas em diversas frentes, incluindo no reforço da formação profissional, organização dum fórum de gastronomia internacional como evento anual, participação em eventos internacionais de intercâmbio organizados pelas diferentes Cidades Criativas, bem como criar uma unidade de gestão que inclui os sectores público e privado para implementar e supervisionar todas as iniciativas e projectos realizados, entre outros. Todas as acções e iniciativas serão conduzidas em consonância com a missão da UCCN de usar a criatividade como motor para um desenvolvimento urbano sustentável. Texto e Imagens: Turismo de Macau (1.11.2017)


Nota: também nesta data a colecção “Chapas Sínicas”, que compreende 3.600 documentos de história sobre a relação entre Portugal e Macau foi inscrita no Registo da Memória do Mundo da UNESCO.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Junto ao edifício dos CTT

O edifício-sede dos Correios de Macau é uma projecto da autoria do arquitecto Chan Kun Pui que trabalhava na Repartição das Obras Públicas. Na mesma época, em 1927, foi ele o autor do chamado Pavilhão  Octogonal (Pak Kok Ting) no Jardim de S. Francisco. O espaço, propriedade de um macaense, começou por ser um bar, salão de chá e bilhar/restaurante. Seria comprado por Ho Yin, vice-presidente da associação, em 1947, e transformado em biblioteca, abrindo ao público a 1 de Novembro do ano seguinte. Oficialmente designa-se "Sala de Leitura de Jornais e Livros da Associação Comercial de Macau".
Construído entre 1928 e 1931 ano em que foi inaugurado, a 6 de Dezembro, um domingo. Trata-se de um edifício de 3 pisos com características neoclássicas destacando-se a torre sineira e o relógio no topo da entrada. Está classificado como Património de Interesse Arquitectónico.
Nas imagens pode ver-se, ainda antes do edifício ficar pronto um pequeno quiosque, estrutura com características arquitectónicas chinesas.
Nas fotos posteriores - dos anos seguintes - esta estrutura deixa de aparecer surgindo já na década de 1990, uma outra, mas em moldes ocidentais, que ainda hoje existe. Na década de 1950 foi colocada na zona uma cabine telefónica (ver postal a cores em baixo).

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Porto de Macau: artigo de 1925

Estruturas que sobreviveram até ao século XXI
"(…) Ora é da construção do porto de Macau, em vias de acabamento, que nos falaram há dias as comunicações telegráficas. Há 41 anos que foi elaborado pelo engenheiro Adolfo Loureiro o primeiro projecto para a construção do porto, mas foi julgado grandioso de mais para as posses financeiras da província. A esse estudo seguiram-se outros até que o de general Castelo Branco foi definitivamente aprovado iniciando-se os trabalhos em 1917 com as receitas já então muito grandes, cobradas anualmente pelo governo.
Este projecto visava especialmente a construção do chamado Porto Interior, do este da peninsula, olhando portanto a ilha da Lapa e foi alterado, completando-se com novos traçados, de acordo com as exigências modernas.
Em 1919, resolveu-se que o porto, para navios de grande calado, seria feito na costa leste da península – na “ráda” – e o acordo diplomático, feito com os chinezes em 1920, garantiu a tranquila execução do grandioso plano de engenharia que tornará Macau, aos seus antigos tempos de esplendor comercial.Comecemos pelo istmo onde se abrem as velhas Portas do Cerco.
Seguindo a costa do lado do Porto Interior temos: docas, varadouro e estaleiros, para embarcações de pequeno porte. Um canal, que atravessa o istmo ao norte, faz a ligação entre o Porto Interior e o Porto de Areia Preta, destinado a navios de pequena tonelagem e dispondo de uma doca seca. Um canal permite a comunicação deste Porto com o Porto artificial, para navios de grande calado.
Ao longo do caes verá o leitor o Bairro Industrial e operário, o Arsenal, o Depósito de Carvão, os Armazéns e caes acostáveis. Continuando a seguir a carta encontramos, sucessivamente, as docas n. 5 para vapores de carreira; n. 4; n.3 para juncos; n. 2 para embarcações de recreio e para as da capitania; n.1 para hidroaviões, cujo parque está situado entre esta doca e a doca n.2.
Longos molhes, cuidados e fortemente construídos, defendem dos impetos do mar, quando revolto, os ancoradouros dos navios. (…)
Para que se possa fazer ideia da atividade com que tem caminhado as obras, bastará saber-se que os trabalhos executados pela Missão de Melhoramentos e pela Direcção das Obras dos Portos, desde Abril de 1919 ao fim de 1921, foram:
-Dragagens de Patane, ao norte da Ilha Verde, Macau Siac, Taipa, do Porto Interior (para conservação) num volume total de 1 milhão de metros cúbicos;
- Aterros correspondentes, em cerca de 50 hectares;
-Defezas dos aterros, com môtas, numa extensão total (incluindo as praias artificiaes, para varadouros) de 4 quilómetros.
- Obras hidraulicas marginais numa extensão total de 1500 metros;
- Molhes de abrigo (em enrocamentos) na extensão total de 1.100 metros; isto alem da organização e instalação dos serviços, elaboração do plano geral e dos projectos, os respectivos desenhos…
Artigo não assinado intitulado "O Porto de Macau” publicado na revista "Portugal", nº 46 de 30.6.1925
Nota: A imagem acima é da chamada Doca dos Holandeses

domingo, 29 de outubro de 2017

O homem do riquexó e os juncos na rada

Nesta foto montagem a partir de uma fotografia dos anos 60 - onde o condutor do riquexó observa os juncos na rada de Macau na zona da Av. da República - incluí um texto sobre os juncos da autoria do comandante João Manuel Nobre de Carvalho elaborado para uma emissão filatélica dos CTT de Macau em 1985.
Nota: clicar na imagem para ver em tamanho maior

sábado, 28 de outubro de 2017

Clipping sobre apresentação da Biografia de Manuel da Silva Mendes em Macau


Fotografias da apresentação da Biografia de Manuel da Silva Mendes (1867-1931) em Macau feita pelo meu amigo João Guedes (autor do prefácio) na Academia Jao Tsung-I.
Fotos:
Diana Soeiro. Organização: Instituto Cultural Macau e Casa de Portugal em Macau.



Algumas das notícias publicadas após o lançamento em Macau da Biografia de Manuel da Silva Mendes (1867-1931) a 26 de Outubro último. Acresce ainda uma entrevista à TDM-Rádio Macau e um destaque no site da Revista Macau.

Na edição de 27 de Outubro o Ponto Final titula "Lançada em Macau primeira biografia de Manuel da Silva Mendes".
A primeira biografia de Manuel da Silva Mendes (1867-1931) foi lançada esta quinta-feira em Macau, reavivando uma figura “esquecida”, apesar de ser “um dos intelectuais mais relevantes da história de Macau na primeira metade do século XX”.
De “espírito multifacetado”, Manuel da Silva Mendes foi professor, advogado e juiz, e um “apaixonado pela civilização e cultura chinesa”, que publicou vários artigos e livros, tornando-se “um reputado sinólogo e importante coleccionador de objectos de arte”, descreve o Instituto Cultural de Macau (ICM), que co-edita a obra, recentemente lançada em Portugal.
Esta biografia surge pelos 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes, uma figura que, “inexplicavelmente, tem sido esquecida e que personifica, como poucos, a génese de Macau – a fusão entre o Oriente e o Ocidente”, realça o autor, João Botas, na introdução da obra, cuja apresentação em Macau ficou a cargo do crítico literário João Guedes, que assina o prefácio.
A biografia de Manuel da Silva Mendes, cuja vida se dividiu entre Portugal (onde nasceu) e Macau (onde morreu) desdobra-se em capítulos dedicados ao “homem”, ao “professor”, ao “político”, ao “advogado e juiz”, ao “sinólogo e coleccionador” e ao “escritor e cronista”, reunindo ainda documentos, uma selecção de textos, uma cronologia e memórias em imagens de homem que tem o nome gravado na toponímia de Macau.
Para João Guedes, o livro oferece conhecimento sobre uma figura que “devido à própria personalidade e a preconceitos políticos persistentes” foi esquecida, sendo “visto como um professor de liceu, que tinha umas opiniões sobre a educação e, na generalidade, um mau feitio”, quando “é muito mais do que isso”.
“Era um intelectual de grande profundidade, um homem que em Macau tem opiniões importantíssimas e muito de vanguarda sobre a Educação – sobre as quais passaram sempre uma esponja por cima”, aponta o também investigador da história de Macau.
“Era um tipo que diziam irascível, [mas] ele era uma mentalidade superior e, de maneira que, ficava – suponho eu – irritado com a tacanhez deste pequeno burgo”, e, também por causa disso, Silva Mendes “não se dava com os portugueses”, sendo, aliás, conhecido que “as relações dele com Camilo Pessanha não eram boas”, diz João Guedes, entre risos.
No entanto, “dava-se com os maiores expoentes da literatura, da arte e da política da China”, algo até “escondido” do conhecimento, arrisca dizer João Guedes, falando ainda das relações que Manuel da Silva Mendes mantinha com anarquistas chineses, como Liu Shifu (1884-1915), considerado o maior ideólogo do anarquismo da China, ou Chen Jiongming (1878-1933), um general que “funda um partido, uma dissidência, à esquerda, do Kuomitang [então no poder], ainda hoje um dos poucos [oficialmente] reconhecidos na China”.
Das diversas facetas, o crítico literário destaca nomeadamente o “conhecedor da arte chinesa, principalmente da cerâmica Shek Wan [designação em cantonense de uma pequena aldeia de Foshan, entre Macau e Cantão] que, curiosamente, é a que serve de inspiração a Bordalo Pinheiro em Portugal”: “A louça das Caldas da Rainha é baseada na de Shek Wan” relativamente à qual “o Silva Mendes tinha um conhecimento muito vasto” e mais do que isso: “Ele tinha “peças importantíssimas que constituíam o núcleo central do há muito extinto Museu Luís de Camões”, cujo espólio, incluindo essa colecção, foi herdado pelo Museu de Arte de Macau.
“Esta é a primeira biografia”, porque, apesar de Gonzaga Gomes ter reunido uma colectânea de escritos de Manuel da Silva Mendes, “nunca tinha havido uma iniciativa do género”, sublinha João Guedes, falando mesmo “numa pedrada no charco” num “território onde as biografias escasseiam muito”.
Notícia da agência Lusa publicada também no Diário de Notícias e Notícias de Coimbra


(...) Hoje foi também lançada em Macau a primeira biografia de Manuel da Silva Mendes (1867-1931), que reaviva uma figura "esquecida", apesar de ser "um dos intelectuais mais relevantes da história de Macau, na primeira metade do século XX". De "espírito multifacetado", Manuel da Silva Mendes foi professor, advogado e juiz, e um "apaixonado pela civilização e cultura chinesa", publicou vários artigos e livros, e tornou-se "um reputado sinólogo e importante colecionador de objetos de arte", descreve o Instituto Cultural de Macau (ICM), que coedita a obra, recentemente lançada em Portugal, da autoria de João Botas. A biografia de Silva Mendes, cuja vida se dividiu entre Portugal (onde nasceu) e Macau (onde morreu) desdobra-se em capítulos dedicados ao "homem", ao "professor", ao "político", ao "advogado e juiz", ao "sinólogo e colecionador" e ao "escritor e cronista", reunindo ainda documentos, uma seleção de textos, uma cronologia e memórias em imagens de um homem que tem o nome gravado na toponímia de Macau. (...)
No Jornal Tribuna de Macau o lançamento teve direito a 'chamada de capa' com o título "Silva Mendes uma figura 'branqueada' na vanguarda da educação". Inês Almeida assina o artigo:
"Foram ontem apresentadas as obras “Contributos para o Estudo da Literatura de Macau – Trinta Autores de Língua Portuguesa”, “Clepsidra” e “Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931”. João Guedes, responsável pelo prefácio da obra sobre Silva Mendes, fala de uma figura “com opiniões importantíssimas” e uma mentalidade superior irritada “com a tacanhez” do “pequeno burgo” que era Macau
Após ter sido lançado em Lisboa, foi apresentada em Macau a obra “Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931” da autoria de João Botas, a par do livro “Contributos para o Estudo da Literatura de Macau – Trinta Autores de Língua Portuguesa” e de uma edição bilingue produzida a pensar no mercado da China Continental da “Clepsidra” de Camilo Pessanha.
João Guedes, autor do prefácio da obra dedicada a Silva Mendes, sublinha que o livro “começa por oferecer o conhecimento de uma figura de Macau que, devido à sua própria personalidade e a preconceitos políticos persistentes foi sempre branqueada”. “É o homem que é visto como professor de liceu, que tinha opiniões sobre a educação e, em generalidade, um mau feitio”.
Por norma, segundo defende, “fica por aí” o conhecimento sobre esta personalidade, no entanto, “ele era muito mais do que isso”. “Ele era um intelectual de grande profundidade, um homem com opiniões importantíssimas e de vanguarda sobre a educação e passaram-lhe uma esponja por cima, diziam que era irascível, tinha uma mentalidade superior, de maneira que ficava irritado com a tacanhez deste pequeno burgo que é Macau”.
Manuel da Silva Mendes “não se dava com os portugueses por causa disso”. Em vez disso, “dava-se com os maiores expoentes da literatura, arte e da política da China”. “Isso foi sempre uma coisa completamente escondida do conhecimento. Era um anarquista e assim continuou. Dava-se com anarquistas chineses como Liu Shifu, Chen Jiongming, o ‘senhor da guerra’, que era general e continuava a dizer que era anarquista”. “Ele [Chen Jiongming] é o homem que funda um partido, uma dissidência do kuomitang, à esquerda, e é um partido que ainda hoje é reconhecido”, explicou.
Para João Guedes, esta primeira biografia oficial de Silva Mendes é “uma pedrada no charco pelo conhecimento que oferece desta personalidade completamente invulgar na história de Macau”. (...)
Silva Mendes destacou-se também pelas suas ideias ao nível da educação, pensamentos que actualmente nada têm de desconhecido. Mas, nota o jornalista e investigador, “ele era muito avançado nesse aspecto e era professor de liceu, portanto, chega a Macau e apesar de ser um bocadinho melhor que em Portugal, porque havia uma certa abertura provocada pela proximidade de Hong Kong, há um espartilho pesado e ele, com uma série de artigos no jornal, contribui para quebrar essas rotinas na educação”.
Em Macau, refere João Guedes, Silva Mendes deixou ainda uma marca importante: a sua casa, que “reflecte bem o estilo do proprietário”.